Passaram-se trinta anos desde a primeira vez que estive aqui. Eu era apenas um garoto de oito anos. Tudo é tão diferente quando se é uma criança. Este lugar parecia ser tão mais divertido do que agora. Mil coisas e brincadeiras eram imaginadas naquela época, mesmo sozinho eu me divertia aqui, já agora, não consigo imaginar uma só coisa para se fazer. Sinto vontade de ir embora.
Antes verde. Agora já não tão verde assim. As árvores nas quais eu subia, imaginando ser um alpinista, desapareceram. Talvez até elas tenham envelhecido e se mudado para um local melhor, aqui realmente se tornara um lugar sem graça. Onde antes havia a grama macia que adorava deitar sobre, e observar as mais diversas coisas formadas pelas nuvens no céu, agora era apenas um chão vermelho, com uns poucos vestígios de grama.
Lembro-me de olhar para os cavalos que aqui ficavam. Dentre os pretos e marrons, havia apenas um branco. Eu tinha a plena certeza de que ele não era um cavalo comum. Diversas vezes eu tive a impressão de que ele me olhava. Ele devia ter asas. Um cavalo alado. Que me levaria para conhecer os mais maravilhosos lugares do mundo, ou quem sabe, me levaria para conhecer sua família de cavalos alados que moravam em alguma parte do céu, sobre as nuvens. Besteira! Toda criança imagina coisas desse tipo. Vai dizer que você nunca esperou Papai Noel ou Coelhinho da Páscoa?
Para onde teriam ido os esquilos que eu, sem sucesso, adorava tentar capturar? Famílias inteiras desses pequenos roedores “faziam a festa” pulando de árvore em árvore. Agora não havia mais árvores, tampouco, esquilos. Os pássaros coloridos que faziam um coral à parte nos céus, não voavam mais aqui. Vi apenas uns poucos pássaros de cores mortas, com um canto que mais parecia um pedido de socorro. Lamentável.
Forcei um pouco meus olhos e vi, lá ao longe, uma árvore de poucas folhas. Ela tinha uma aparência triste. Fui caminhando até ela. Passei por um trecho que havia algumas pedras, e lembrei-me que aqui havia um pequeno rio que cortava o belo campo verde, como um sorriso no rosto da mais bela atriz de Hollywood. O rio secara. Chegando perto da árvore eu percebi que ela havia se tornado um abrigo de cupins. Pragas destruidoras! Talvez tenham sido os cupins que comeram as outras árvores.
Olhando para a árvore, lembrei-me de um amigo meu. Na cama do hospital. Ele estava fraco e com câncer, assim como a árvore, seca e com os cupins a devorando aos poucos. Felizmente ele conseguiu, com muito custo, ficar curado. Graças aos médicos totalmente competentes e as mais modernas formas de medicina. Ele foi tratado em um hospital de Nova York. Já a árvore, fico pensando como ela seria salva. Se tudo aqui estava sumindo, era só questão de tempo para ela desaparecer também.
Para a pobre árvore não haveria médicos especializados, e nem dinheiro que pagasse os melhores hospitais. Ela só ficaria ali, esperando desaparecer, como todo o resto de natureza que ali um dia existiu. Dei as costas para a árvore. Fui andando até meu carro. No caminho, pensei ter ouvido um som. Tive certeza de que era um cavalo. Senti que ele me observava. Branco. Brilhante. Alado. Talvez ele estivesse ali, a alguns metros do chão, envolto de toda natureza de trinta anos atrás. Fiquei com medo de olhar para trás, por isso, não olhei. Continuei andando até meu carro. Entrei. Girei a chave e fui embora. Deixando para trás as árvores, os esquilos, os pássaros, meu cavalo alado e minha infância.
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